Author Topic: Wikileaks vs. Stratfor: Persigamos a verdade e não aqueles que a revelam  (Read 1254 times)

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Wikileaks vs. Stratfor: Persigamos a verdade e não aqueles que a revelam

Os emails [da Stratfor divulgados pela Wikileaks] confirmam a crescente convicção de que o governo de Obama, longe de divergir do secretismo da era Bush/Cheney, está obcecado a ocultar certas informações ao público e opõe-se firmemente à transparência.
opiniao | 5 Março, 2012 - 01:14 | Por Amy Goodman

Wikileaks, o sítio web de divulgação de informação classificada, publicou novamente uma grande quantidade de documentos, desta vez de uma empresa de segurança privada conhecida como Stratfor. A fonte foi o grupo de hackers “Anonymous”, que afirmou ter obtido mais de 5 milhões de emails dos servidores da Stratfor. O grupo Anonymous obteve o material a 24 de dezembro de 2011 e disponibilizou-o à Wikileaks, que por sua vez trabalhou conjuntamente com 25 meios de comunicação de todo o mundo para analisar os emails e publicá-los.

Entre os emails filtrados encontra-se uma mensagem que sugere que o governo norte-americano emitiu um processo confidencial contra o fundador da Wikileaks, Julian Assange, mediante um grande júri secreto. Para além de mostrar a Stratfor como uma empresa de segurança privada que realiza atividades ilícitas, que tem estreitos vínculos com organismos de segurança dos Estados Unidos e que dá informação tanto a empresas como às Forças Armadas norte-americanas, os emails confirmam a crescente convicção de que o governo de Obama, longe de divergir do secretismo da era Bush/Cheney, está obcecado a ocultar certas informações ao público e opõe-se firmemente à transparência.

Viajei para Londres a 4 de julho do ano passado para entrevistar Assange. Quando lhe perguntei sobre a investigação do grande júri, respondeu: “Não pode considerar-se um júri. É uma espécie de tribunal medieval. São entre 19 a 23 pessoas que juram manter o segredo e não podem consultar o assunto com mais ninguém. Não há juiz, nem advogado de defesa mas há quatro procuradores. É por isso que as pessoas que conhecem bem o modo de proceder de um grande júri nos Estados Unidos afirmam que este acusará qualquer pessoa que o procurador considere pertinente”.

Quando estava a regressar de Londres, o jornal “The Guardian” publicou mais informação sobre o escândalo das escutas telefónicas da empresa News Corp. de Rupert Murdoch, que provocou o encerramento do seu jornal sensacionalista News of the World, o jornal dominical de maior tiragem no Reino Unido. A coincidência é pertinente já que o News of the World informava acerca de tudo menos do que proclamava o seu nome: as verdadeiras notícias do mundo. Centrava-se, pelo contrário, em detalhes picantes sobre a vida privada das celebridades, crimes sensacionalistas e fotografias de mulheres seminuas. Graças a este e aos seus outros empreendimentos, Murdoch acumulou uma fortuna pessoal de 7.600 milhões de dólares.

Tanto Murdoch como Assange nasceram na Austrália, embora Murdoch tenha renunciado à sua nacionalidade australiana para obter a cidadania norte-americana e assim poder comprar mais licenças de difusão de rádio e televisão nos Estados Unidos. Mas ao contrário de Murdoch, Assange protagonizou um dos atos mais valentes da história das publicações ao fundar a wikileaks.org, um sítio web que permite às pessoas entregar documentos de forma segura mediante a utilização da Internet de um modo que faz com que seja quase impossível rastrear o informador. Assange e os seus companheiros da Wikileaks publicaram milhões de documentos, os mais importantes sobre as guerras e ocupações dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, e milhares de telegramas diplomáticos, verdadeiras “notícias do mundo”. A fundação Sydney Peace outorgou uma medalha de ouro a Assange pela sua “excecional valentia e a sua defesa dos direitos humanos”. Em troca, o governo dos Estados Unidos perseguiu-o, possivelmente sob a Lei de Espionagem. Murdoch é venerado como um pioneiro do mundo das notícias, enquanto que os especialistas dos canais de televisão por cabo de que Murdoch é proprietário pedem abertamente a morte de Assange.

Os emails da Stratfor irão sendo publicados pouco a pouco, juntamente com o contexto proporcionado pelos sócios mediáticos da Wikileaks. Os documentos revelam já conexões aproximadas e potencialmente ilícitas entre empregados da Stratfor e funcionários policiais e de segurança. A revista Rolling Stone informou que o Departamento de Segurança Nacional vigiou os protestos de Occupy Wall Street a nível nacional e que o Departamento de Segurança Pública do Texas tem um agente encoberto no Occupy Austin que revelou informações a empregados da Stratfor. A Stratfor é também contratada por empresas multinacionais para conseguir suposta “informação” sobre os seus críticos. Algumas das empresas que contrataram os serviços da Stratfor são: Dow Chemical, Lockheed Martin, Morthrop Grumman, Raytheon e Coca-Cola.

Fred Burton, vicepresidente de informação e segurança da Stratfor e ex-diretor de contrainformação do corpo diplomático do Departamento de Estado dos Estados Unidos, escreveu num email: “Não publicar. Temos um auto de processo secreto contra Assange. Por favor, proteger”. Burton e outros empregados da Stratfor mostraram um profundo interesse pela Wikileaks a partir de 2010 e nos seus correios expressa-se uma forte aversão a Assange em particular. Burton escreveu: “Assange vai ser uma linda noiva na prisão. Rebentem com o terrorista. Vai comer ração durante toda a sua vida”. Outro empregado da Stratfor queria que Assange fosse submetido a tortura mediante a técnica do submarino.

Michael Ratner, assessor legal de Assange e da Wikileaks disse-me: “O governo de Obama perseguiu seis pessoas pela Lei da Espionagem, seis casos diferentes, o número mais elevado desde que a lei entrou em vigor em 1917. Então somos testemunhas de um esforço do governo de Obama, apesar de afirmarem o contrário, de que quer um governo fechado e que está disposto a perseguir os jornalistas. Podem discutir tudo o quiserem sobre violações técnicas da lei, mas ao fim e ao cabo o que acontece é que os Estados Unidos querem ocultar a verdade”.

1917 também foi o ano em que o Senador norte-americano Hiram Johnson pronunciou uma célebre frase: “A primeira vítima da guerra é a verdade”. A Casa Branca realizará uma sessão de gala esta semana em homenagem aos veteranos da guerra do Iraque. Bradley Manning é um veterano da Guerra do Iraque que não foi convidado. Está a ser julgado por um conselho de guerra e poderá ser condenado a cadeia perpétua ou à pena de morte por supostamente ter entregado milhares de documentos militares e diplomáticos à Wikileaks que revelavam informação sobre as vítimas da guerra. O presidente Obama honraria mais o país se homenageasse Assange e Manning.

Devemos perseguir a verdade e não quem a revela.

Artigo publicado em "Democracy Now" em 1 de março de 2012. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Texto em espanhol traduzido para português por Carlos Santospara Esquerda.net

http://www.esquerda.net/opiniao/wikileaks-vs-stratfor-persigamos-verdade-e-n%C3%A3o-aqueles-que-revelam/22174