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Entrevista Rolling Stone: Julian Assange
« on: March 06, 2012, 10:02:40 AM »
Entrevista Rolling Stone: Julian Assange

Em prisão domiciliar na Inglaterra, o fundador do WikiLeaks abre o jogo sobre sua batalha com o NY Times, seu período na solitária e o futuro do jornalismo

por Michael Hastings

É pouco antes do natal e Julian Assange acabou de se mudar para um novo esconderijo no interior da Inglaterra. A casa de dois quartos, emprestada por um parceiro-apoiador do WikiLeaks, é suficientemente confortável, com uma grande lareira de pedra e uma varanda, mas não tão grandiosa quanto a casa de campo na qual ele passou 363 dias em prisão domiciliar, esperando que um tribunal britânico decidisse se ele seria extraditado para a Suécia para enfrentar alegações de que teria molestado sexualmente duas mulheres com as quais se envolveu por um curto período, em agosto de 2010.

Assange está sentado em um sofá esfarrapado, usando suéter de lã, calça escura e um dispositivo eletrônico em volta do tornozelo direito, visível apenas quando cruza as pernas. Aos 40 anos, o fundador do WikiLeaks se parece mais com um rebelde preparado para combater do que com um hacker ou jornalista. Ele melhorou no tratamento com a mídia – está mais disposto a responder a perguntas do que antes, com menos chance de abandonar entrevistas – mas a longa batalha legal o deixou isolado, falido e vulnerável. Recentemente, Assange falou com alguém que chama de uma “fonte de inteligência” ocidental e perguntou ao oficial sobre seu destino. Será um homem livre novamente, com permissão para voltar à sua Austrália natal, ir e vir quando quiser? “Ele me respondeu que eu estava ferrado.”

“Você está ferrado?”, pergunto.

Assange faz uma pausa e olha pela janela. A casa está cercada por morros e matas tranquilas, mas isso pouco lhe oferece em termos de fuga. A Suprema Corte britânica ouviria seu apelo à extradição em 1º de fevereiro – mas, seja lá o que acontecer, provavelmente ele continuará sendo um homem procurado. A Interpol emitiu um “aviso vermelho” para sua prisão, em nome das autoridades suecas, para questionamento com “relação a diversas ofensas sexuais” – Kaddafi e acusados de crimes de guerra mereceram apenas um “aviso laranja” e o governo dos Estados Unidos o rotulou de “terrorista de alta tecnologia”, lançando uma investigação gigantesca e inédita, voltada para mostrar o jornalismo de Assange como uma forma de espionagem internacional. Desde novembro de 2010, quando o WikiLeaks envergonhou e enfureceu governos no mundo inteiro com a divulgação do que se tornou conhecido como Cablegate – cerca de 250 mil documentos diplomáticos confidenciais de mais de 150 países –, os apoiadores do grupo se viram detidos em aeroportos, intimados a testemunhar perante um júri e ordenados a entregar suas contas no Twitter e e-mails às autoridades.

Assange sempre se envolveu profundamente com o mundo – e sempre se meteu em encrenca. Nascido em uma pequena cidade em Queensland, passou boa parte da juventude viajando pela Austrália com a mãe e o padrasto, que dirigia uma companhia de teatro. Na adolescência, descobriu os computadores – seu primeiro foi um Commodore 64 – e se tornou um dos primeiros hackers do mundo, usando o nome Mendax, que em latim significa “nobremente inverídico”. Depois de invadir sistemas da NASA e do Pentágono quando tinha 16 anos, foi preso por 25 acusações de invasão, o que o incentivou a andar na linha. No entanto, enquanto viajava pelo mundo, trabalhando como consultor de tecnologia na década de 90, continuou usando suas habilidades no computador para garantir a liberdade de informação – uma condição necessária, ele acredita, para a autorregulamentação democrática. “Desde os dias gloriosos do radicalismo norte-americano, que foi a Revolução Americana, acho que a visão de [James] Madison [quarto presidente dos Estados Unidos] sobre o governo ainda não foi equiparada”, ele afirma, durante os três dias que passo com ele enquanto se organiza na nova casa na Inglaterra. “De que as pessoas determinadas a estar em uma democracia, a ser seus próprios governos, devem ter o poder que o conhecimento trará – porque o conhecimento sempre dominará sobre a ignorância. É possível ser informado e ser seu próprio governante ou ser ignorante e ter outra pessoa, que não é ignorante, para mandar em você. A questão é: onde os Estados Unidos traíram Madison e [Thomas] Jefferson, traíram esses valores básicos sobre como manter uma democracia? Acho que o complexo industrial-militar dos Estados Unidos e a maioria dos políticos no Congresso traíram esses valores.”

http://rollingstone.com.br/edicao/edicao-65/entrevista-rolling-stone-julian-assange